
Exoesqueletos auxiliam trabalhadores em tarefas que exigem força ou postura incômoda

Quando ouvimos a palavra “exoesqueleto”, parece que estamos falando sobre algum personagem de filme de ficção científica cheio de robôs, naves espaciais e outras máquinas futuristas, porém, essa realidade está bem mais próxima do que podemos imaginar.
Originalmente o termo exoesqueleto veio da zoologia, que é aquela parte externa resistente do corpo que cobre muitos animais (a qual popularmente chamamos de “casca”) como insetos, artrópodes, aracnídeos entre outros e que fornece proteção aos órgãos internos deles, suporte para os músculos e evita também a perda de água. Essa verdadeira carapaça que os reveste é a responsável pela “superforça” de muitas espécies quando comparamos com um ser humano, que possui um endoesqueleto, isto é, localizado internamente em nosso corpo. Para efeitos comparativos, um atleta muito forte é capaz de suportar o próprio peso até 2,5 vezes, porém há espécies de besouros, por exemplo, que são capazes de suportar mais de 1000 vezes o próprio peso.
Baseando-se nessa realidade e observações da incrível capacidade dessas criaturas, iniciaram-se as primeiras pesquisas já nos anos 1960, porém os avanços mais representativos vieram nos últimos 20 anos com a significativa evolução da engenharia, dos materiais e da robótica em geral e como essa tecnologia evoluiu aceleradamente, ampliou-se muito a gama de aplicações possíveis para esses equipamentos.
Podemos dizer que os exoesqueletos são, portanto, dispositivos mecânicos ou eletromecânicos “vestíveis” que se destinam a ajudar ou tecnologicamente melhorar as limitadas capacidades físicas do corpo humano, principalmente em tarefas que exijam força, que sejam repetitivas ou que tenham que ser realizadas em posições desconfortáveis as quais possam causar lesões nas pessoas. Sob esses aspectos, é possível aliviar as cargas mais pesadas, os esforços excessivos ou de posturas incômodas durante uma jornada de trabalho diária.
Utilização na Saúde
Atualmente é o uso mais comum dos exoesqueletos, os quais são voltados principalmente para a medicina de reabilitação, que impulsionou a ideia inicial do desenvolvimento desses equipamentos, com a finalidade de ajudar as pessoas que sofreram algum acidente ou doença e necessitavam voltar a andar, se movimentar ou fortalecer seus músculos. Com o passar dos anos, essa tecnologia foi avançando e seu uso foi se tornando mais simples e difundido. É comum, inclusive, a utilização em crianças que possuem limitações em sua mobilidade por doenças congênitas como atrofia muscular espinhal e outros distúrbios neuromusculares e, em vários casos, adaptando um exoesqueleto ao corpo dessas crianças, foi possível que elas conseguissem caminhar pela primeira vez. Esses dispositivos podem dispor de tendões, molas e juntas artificiais que podem ser reguladas individualmente permitindo que os pacientes possam executar vários movimentos que não seriam possíveis sem eles, o que beneficia enormemente outros aspectos pessoais como o cognitivo, social e emocional, pois o paciente se sente muito mais integrado à família e sociedade.
Utilização na Indústria
É nas fábricas, nas linhas de montagem e nos armazéns que os exoesqueletos também podem trazer grandes benefícios. Tarefas pesadas, repetitivas ou com posturas difíceis que sobrecarregam os trabalhadores são candidatas perfeitas à utilização desses equipamentos, os quais possuem um custo mais elevado, porém muitas vezes menor do que a implementação de um robô. Além disso, podem ajudar a reduzir os acidentes de trabalho, os afastamentos e aumentam a produtividade, pois o funcionário cansa menos e pode executar suas tarefas com muito mais conforto e rapidez.
Utilização Militar
É uma área que vem crescendo nos últimos anos com o avanço da tecnologia e com a necessidade de preservar a saúde dos soldados em ambientes inóspitos e nas tarefas mais pesadas. Parece ainda coisa de ficção científica, mas há projetos e protótipos em desenvolvimento que auxiliam os combatentes a caminharem em terrenos difíceis e a permanecerem em posições agachadas ou de joelhos por muito mais tempo do que somente o corpo humano suportaria.
Utilização na Construção Civil
É uma das áreas mais promissoras para a adoção desse tipo de tecnologia, pois há uma infinidade de tarefas que seriam amplamente beneficiadas, principalmente aquelas que envolvem o levantamento e movimentação de objetos e equipamentos pesados, carregamento e descarregamento de materiais, trabalhos repetitivos ou serviços que requeiram uma posição incômoda como os trabalhos sobre cabeça, por exemplo. A construção civil no Brasil é uma das indústrias menos equipadas, e, por conta desse fato, um dos segmentos que mais sofre com acidentes de trabalho e afastamentos por conta das condições fatigantes às quais os operários são submetidos diariamente e isso representa um custo social enorme para toda a sociedade a qual arca com as despesas de tratamentos, indenizações, aposentadorias precoces e até mesmo pensões por morte.
Em busca de mais saúde e segurança na Construção Civil
Nos canteiros de obras brasileiros, sempre foi um desafio enorme para a área de Saúde e Segurança do Trabalho demonstrar ser parte do negócio e que está diretamente atrelada à produtividade e não somente à pura fiscalização. A Ergonomia, por sua vez, deixa claro que esse é o seu propósito: otimizar o bem-estar humano e o desempenho geral do sistema.
O que falta para que as construtoras invistam mais em Ergonomia então? Uma boa gestão organizacional, que consiga empregar as tecnologias e recursos disponíveis, promovendo alinhamento dos processos às pessoas, aumentando a produtividade e criando vantagens competitivas reais.
Nesse contexto, os exoesqueletos podem encaixar-se perfeitamente, pois são a tecnologia mais moderna projetada para o aumento da capacidade dos trabalhadores, entendida como qualquer tentativa de superar temporariamente ou permanentemente as limitações atuais do corpo humano por um meio artificial com objetivo da redução de lesões articulares e musculares. Com a proteção da saúde sob o aspecto físico dos trabalhadores, as empresas e os demais envolvidos na cadeia (funcionários, clientes, sindicatos, governo, investidores etc.) podem ter vários outros benefícios:
· Maior desempenho e qualidade no trabalho executado, aumentando a produtividade até em 20%, melhorando a satisfação do cliente e diminuindo os retrabalhos;
· Diminuição do absenteísmo e presenteísmo por redução em até 47% da fadiga muscular;
· Diminuição da concessão de benefícios pelo Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, que, conforme notificações de acidente de trabalho: 6% das ocupações são alimentadores de linha de produção, 2% são causados por esforço físico e 3% têm o ombro como parte do corpo mais atingida;
· Diminuição de custos com afastamentos do trabalho, pois de 7% a 30% dos trabalhadores relatam dores nos ombros;
· Proteção e retenção da mão de obra especializada, que na indústria da construção civil é cada vez mais escassa, sofrendo um verdadeiro apagão de profissionais;
· Melhora do clima organizacional por modernizar as condições de trabalho e promover mais qualidade de vida;
· Sentimento de valorização pelo trabalhador, que tem maior percepção de que a empresa investe e se preocupa com a sua saúde e segurança;
· Melhoria da governança organizacional, diminuindo os riscos de processos e indenizações trabalhistas, pois a empresa comprova que fornece o dispositivo necessário para melhorar a postura na atividade, atendendo a uma AET – Análise Ergonômica do Trabalho;
· ESG (sigla em inglês para Environmental, Social and Governance) - maior atração de investimentos por ter mais sustentabilidade não comprometendo o recurso humano na promoção de melhores condições de trabalho;
· Atingimento de melhores resultados financeiros/humanos e o consequente crescimento de mercado.
Podemos citar como um bom modelo o exoesqueleto desenvolvido especificamente para trabalhadores da construção civil, lançado recentemente no mercado nacional, o qual é um dispositivo totalmente mecânico, isto é, não requer nenhum tipo de fonte de energia, e faz com que a carga suportada pelos braços dos trabalhadores seja parcialmente transferida para um sistema que a absorve e redistribui, aliviando significativamente a tensão sobre os músculos e tendões, reduzindo a fadiga sobre a região dos ombros dos trabalhadores e, por consequência, aumentando sua produtividade. Essa condição é particularmente interessante para aqueles funcionários que executam tarefas sobre cabeça porque permite que fiquem por mais tempo com os braços levantados com muito menos desgaste e reduzindo o risco de lesões.
Antes de serem utilizados no mercado, esses equipamentos necessitam ser cuidadosamente desenvolvidos e extensamente testados, pois um produto concebido de forma inadequada, sem uma determinação clara de seus limites ou de sua correta utilização, pode representar um risco à integridade física de seus utilizadores por falhas ou defeitos não previstos durante esse desenvolvimento. Importante mencionar que por serem utilizados por pessoas com diferenças físicas e necessidades específicas, os exoesqueletos devem ser ajustados individualmente aos seus utilizadores para que consigam desempenhar todo seu potencial e, por tratarem-se de equipamentos essencialmente mecânicos, devem ser submetidos às manutenções conforme prazos e orientações previstas pelo fabricante ou assim que apresentarem algum possível defeito aparente, evitando assim qualquer problema maior ao usuário.
Como será o futuro dos Exoesqueletos?
É certo que a tecnologia continuará evoluindo, os custos serão reduzidos com a introdução de novos materiais e processos e a adoção será cada vez maior, pois o transhumanismo é uma tendência em todos os segmentos. Esse movimento é uma corrente cultural e intelectual em todo mundo onde se busca a transformação das condições humanas através do desenvolvimento de ferramentas que aprimorem suas capacidades, sejam físicas, psicológicas ou intelectuais. Tarefas puramente corporais, perigosas ou altamente repetitivas já estão sendo realizadas por máquinas especializadas de forma muito mais eficiente, porém, as que envolvem processos de decisão, criação ou artística não podem prescindir dos seres humanos e por que não trabalhar com suas habilidades aumentadas?
É possível, portanto, que o futuro dos exoesqueletos nos ajudará a levar a essas mudanças no mercado de trabalho, trazendo mais conforto, possibilidades e produtividade e, apesar das enormes vantagens que eles podem nos trazer em várias áreas, ainda teremos grandes desafios para enfrentar, seja na aceitação da inovação ou no investimento inicial a ser feito para obtenção de ganhos num mercado que ainda enxerga esse tipo de novidade mais como um custo e não como uma possibilidade efetiva de evolução.
Autores:
Paulo Bellintani – Engenheiro Mecânico pela Universidade Mackenzie com Especialização em Segurança contra Incêndio e Pânico, Gerente de Normas e Aprovações da Hilti do Brasil e há 15 anos atuando no mercado de construção residencial, comercial e industrial.
Liana Rocha - Técnica de Segurança do Trabalho, Graduanda de Engenharia Ambiental e Sanitária, Pós-Graduada em SGI e Pós-graduanda em Ergonomia. Coordenadora da Segurança do Trabalho da Hilti do Brasil e há 15 anos atuando nesse mercado.
Matéria escrita para a Revista Proteção – edição 382 – Outubro 2023